A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) concluiu as investigações da Operação Registro Oculto, que desarticulou um esquema milionário de fraudes veiculares em Ipatinga e região do Vale do Aço. Durante coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira (20), autoridades detalharam o funcionamento da quadrilha. O grupo atuava desde 2022 e contava com a participação de despachantes e servidores públicos.
Na última segunda-feira (18), a polícia prendeu preventivamente quatro pessoas. Entre os detidos estão três despachantes documentalistas e a proprietária de um Centro de Formação de Condutores. Segundo as investigações, essa mulher era a responsável por gerenciar a movimentação financeira do grupo criminoso.
Ao todo, 16 pessoas foram indiciadas por crimes graves. A lista inclui associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso e corrupção ativa e passiva. Além disso, eles responderão por inserção de dados falsos em sistemas de informação e fornecimento ilícito de senhas.
Como a fraude veicular foi descoberta
O esquema começou a ruir em 2022. Naquela época, a delegada de trânsito de Ipatinga identificou duas transferências irregulares de veículos. Esses procedimentos ocorreram sem a realização de vistoria e sem a apresentação da documentação obrigatória na delegacia.
A descoberta mais alarmante veio logo em seguida. Uma das transferências fraudulentas foi realizada utilizando o login e a senha de uma servidora municipal. O detalhe que chamou a atenção dos investigadores é que essa funcionária estava em período de férias regulamentares no dia da movimentação.
A partir desse indício, a Polícia Civil solicitou uma auditoria mais ampla no sistema do Detran-MG. O resultado foi surpreendente: mais de 300 movimentações cadastrais suspeitas foram identificadas apenas utilizando a senha dessa servidora afastada.
Os sete métodos do esquema criminoso
Durante a coletiva, o delegado Augusto Luís Frade Drumond explicou a complexidade da fraude veicular. A investigação, que durou quase três anos e meio, mapeou sete esquemas diferentes utilizados pela quadrilha para burlar o sistema de trânsito.
O método mais comum era a “transferência virtual”. Nesse caso, os despachantes não apresentavam nenhum documento físico. Eles simplesmente recebiam informações privilegiadas de servidores e inseriam os dados no sistema. Em seguida, os funcionários públicos efetivavam a transferência sem realizar qualquer conferência ou vistoria.
A audácia do grupo era tão grande que eles transferiam até mesmo veículos de pessoas falecidas. “Foram identificadas fraudes de vários veículos de pessoas falecidas que foram transferidas para o nome de outras pessoas, sem inventário, sem autorização judicial e sem reconhecimento de firma”, destacou o delegado Augusto Frade.
Outra prática comum envolvia a alteração de dados físicos dos automóveis. Veículos rebaixados, por exemplo, eram legalizados no sistema sem passar pela certificação obrigatória de segurança do Inmetro. O objetivo era evitar problemas durante abordagens policiais em blitze.

Servidores públicos atuavam como informantes
A investigação revelou que o envolvimento dos servidores públicos ia além da aprovação de vistorias fictícias. Eles atuavam ativamente para proteger o esquema criminoso. Os funcionários repassavam informações privilegiadas aos despachantes sobre futuras auditorias e fiscalizações.
Em março de 2023, durante a deflagração da Operação Ponto Final, essa rede de proteção ficou evidente. Na noite anterior à ação policial, servidores avisaram o grupo de despachantes que a corregedoria da Polícia Civil estava a caminho do interior. Apesar do vazamento, a operação ocorreu e resultou na apreensão de vasta documentação que comprovou as fraudes.
Mesmo após essa primeira investida policial, os quatro despachantes presos nesta semana continuaram operando o esquema. “Sabendo que eles estavam sendo investigados pelo departamento de polícia aqui de Ipatinga, ainda assim eles continuaram a praticar fraudes no setor de trânsito”, afirmou o delegado Frade, justificando o pedido de prisão preventiva.
Próximos passos da investigação
O inquérito policial da Operação Registro Oculto é considerado de alta complexidade. O documento possui 19 volumes e ultrapassa a marca de 7.500 páginas. Durante o processo, os investigadores ouviram mais de 220 pessoas, incluindo proprietários de veículos, testemunhas e os próprios investigados.
Embora esta fase da operação tenha sido concluída com o indiciamento de 16 pessoas, o trabalho da Polícia Civil continua. As autoridades confirmaram que o esquema de fraude veicular não se restringiu apenas a Ipatinga. A quadrilha também atuou em outras cidades do Vale do Aço e até mesmo em comarcas fora da região.
O Ministério Público já ofereceu denúncia contra todos os indiciados e solicitou o afastamento cautelar dos envolvidos de suas funções. Agora, a Justiça analisa os pedidos enquanto a polícia segue investigando para identificar outros possíveis participantes dessa rede criminosa.