Crise convulsiva não é sinônimo de epilepsia: neurologista explica diferenças e sinais de alerta

A desclassificação do ator Henry Castelli do Big Brother Brasil 26, após sofrer duas crises convulsivas em menos de 24 horas durante uma prova de resistência, trouxe à tona um tema importante para a saúde pública: a diferença entre uma crise convulsiva isolada e o diagnóstico de epilepsia. O neurologista Dr. Wesley Vieira, do Hospital Márcio Cunha, esclarece que nem toda convulsão significa epilepsia e explica quando um episódio deve ser investigado.

Segundo o especialista, existem situações em que o cérebro reage de forma aguda a um estresse intenso, provocando uma crise convulsiva sem que isso caracterize epilepsia. “Nem toda convulsão significa epilepsia. Existem situações em que o cérebro reage de forma aguda a um estresse intenso, como desidratação, privação do sono, jejum prolongado, hipoglicemia, febre, infecções, uso de álcool ou outras substâncias, alterações nos sais do sangue ou esforço físico intenso. Nessas situações, dizemos que são crises provocadas”, explica Dr. Wesley.

O caso do participante do reality ilustra bem essa situação. Após aproximadamente 10 horas em uma prova de resistência, com privação de sono e esforço físico extremo, o participante sofreu uma primeira crise. Mesmo após exames que não apontaram anormalidades, teve um segundo episódio logo ao retornar à casa, o que levou à sua eliminação por recomendação médica.

“Quando uma pessoa tem duas crises muito próximas, por exemplo, dentro de um intervalo menor que 24 horas, isso geralmente sugere a presença de um fator desencadeante comum e não necessariamente diagnóstico de epilepsia”, esclarece o neurologista.

Quando é epilepsia?

O diagnóstico de epilepsia, por sua vez, é considerado quando ocorrem duas ou mais crises não provocadas em momentos diferentes da vida. “O diagnóstico de epilepsia é considerado quando ocorrem duas ou mais crises não provocadas em momentos diferentes da vida. Mesmo que os exames estejam normais, o mais importante é a história clínica”, afirma Dr. Wesley.

A epilepsia é definida pela tendência do cérebro a apresentar crises repetidas ao longo do tempo, e não apenas por um exame alterado. Em pessoas que já têm o diagnóstico, crises em sequência podem acontecer quando há falha no uso das medicações, noites mal dormidas, consumo de álcool ou estresse importante, porque o cérebro perde a proteção que o tratamento oferece.

Sinais sutis que não devem ser ignorados

Muitas pessoas associam convulsão apenas à imagem clássica de alguém caído no chão se debatendo, mas esse é apenas um tipo de crise. O neurologista alerta para sinais mais sutis, chamados de crises focais, que muitas vezes passam despercebidos.

“Essas crises podem aparecer como um olhar parado, a pessoa fica alguns segundos sem responder, parece desligada ou confusa. Em outros momentos pode fazer movimentos repetitivos sem perceber, como mastigar, engolir, esfregar as mãos ou mexer em objetos”, detalha o especialista.

Outros sinais incluem sensações estranhas, como sentir um cheiro que não existe, um gosto diferente na boca, formigamento em alguma parte do corpo, sensação súbita de medo, aperto no peito ou estranhamento sem motivo aparente. Às vezes a pessoa pode ter dificuldade para falar, trocar palavras ou não entender o que os outros estão dizendo naquele momento.

“É importante reforçar: isso não é uma distração, não é frescura, nem problema emocional. São manifestações reais de uma alteração momentânea do funcionamento do cérebro. Por isso, se esses episódios começarem a se repetir, é fundamental procurar um neurologista”, enfatiza Dr. Wesley.

Investigação e tratamento

Toda crise convulsiva precisa ser avaliada por um médico, porque identificar a causa correta é o que garante o tratamento adequado e a prevenção de novas crises. O protocolo de investigação começa com uma conversa detalhada com o paciente e com quem presenciou a crise, para entender como foi o episódio, quanto tempo durou e se havia algum fator desencadeante.

Além disso, geralmente são solicitados exames de sangue para avaliar alterações metabólicas, um eletroencefalograma que analisa a atividade elétrica do cérebro e, em muitos casos, uma ressonância magnética para avaliar a estrutura cerebral.

Nem sempre é necessário iniciar tratamento logo após a primeira crise. Isso vai depender do risco de ela se repetir, do tipo de crise e dos achados nos exames.

Perspectivas positivas

Quando o diagnóstico de epilepsia é confirmado, as notícias são animadoras. “Cerca de 70% das pessoas conseguem ficar completamente sem crises apenas com o uso correto da medicação. Em outros casos, existem opções, como ajustes de remédio, cirurgias específicas e até dispositivos que podem ajudar a controlar as crises”, revela o neurologista.

A maioria das pessoas com epilepsia pode ter uma vida absolutamente normal: estudar, trabalhar, praticar atividade física e formar família. “O mais importante é o acompanhamento médico, o uso correto da medicação e o conhecimento sobre a própria condição. Com o diagnóstico correto e tratamento adequado, a epilepsia pode ser controlada e a pessoa não precisa deixar de viver bem por causa disso”, conclui Dr. Wesley Vieira.

Principais pontos a lembrar:

•Nem toda convulsão significa epilepsia

•Estresse extremo, privação de sono e esforço físico podem provocar crises isoladas

•Duas crises em menos de 24 horas geralmente indicam um fator desencadeante comum

•Epilepsia é diagnosticada quando há duas ou mais crises não provocadas em momentos diferentes

•Crises focais podem ser sutis: olhar parado, confusão, sensações estranhas

•Todo primeiro episódio deve ser avaliado por um médico

•70% das pessoas com epilepsia ficam sem crises com medicação

•Com tratamento adequado, é possível ter vida completamente normal