O uso das chamadas canetas emagrecedoras ganhou as redes sociais e conversas do dia a dia, sempre ligado à promessa de perda de peso rápida e sem esforço. Contudo, por trás desse discurso sedutor, existe um alerta médico crucial: esses medicamentos não são inofensivos e seu uso indiscriminado pode trazer riscos sérios à saúde.
Inicialmente desenvolvidos para tratar doenças crônicas, esses fármacos se popularizaram como uma solução estética, distorcendo sua real finalidade. É fundamental compreender que eles são uma ferramenta terapêutica, e não um atalho para o emagrecimento.
Um problema de saúde pública
A obesidade é uma realidade crescente. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o número de casos mais do que triplicou no mundo desde 1975. No Brasil, o cenário também é preocupante: 22% da população adulta é considerada obesa, e mais da metade está acima do peso, segundo o Ministério da Saúde.
É nesse contexto de saúde pública que as canetas surgem como uma opção de tratamento. A médica nutróloga da Fundação São Francisco Xavier (FSFX), Dra. Thays Gomes, reforça a indicação correta. “Essas canetas são medicamentos e exigem prescrição. São indicadas para pacientes com obesidade (IMC acima de 30) ou sobrepeso associado a comorbidades, como diabetes e hipertensão. O objetivo não é estético, é tratar uma doença”, explica.
A banalização e os riscos do uso sem controle
O grande problema, segundo a especialista, é a banalização impulsionada pelas redes sociais, que criaram uma imagem de “solução milagrosa”. Muitas pessoas utilizam as canetas sem qualquer avaliação médica, baseando-se apenas em relatos de terceiros.
“Houve uma banalização do uso, como se fosse uma solução fácil para perder poucos quilos, o que distorce completamente a função real do medicamento”, alerta a Dra. Thays Gomes.
Este uso sem acompanhamento profissional é perigoso. A médica explica que, embora a caneta reduza o apetite, ela não ensina o paciente a se alimentar de forma correta. O acompanhamento médico é indispensável para ajustar doses, monitorar exames e evitar problemas como desnutrição e perda excessiva de massa muscular.
Efeitos colaterais: do desconforto a quadros graves
Os riscos do uso indiscriminado são altos e frequentemente ignorados. Pessoas com histórico familiar de câncer de tireoide, por exemplo, não devem utilizar a medicação. Os efeitos colaterais mais comuns incluem náuseas, vômitos e alterações intestinais. No entanto, os quadros podem evoluir para casos mais graves.
“Entre os riscos mais sérios estão a pancreatite aguda, a formação de cálculos biliares, a paralisia do estômago e, em casos extremos, a obstrução intestinal”, detalha a nutróloga.
Atenção à procedência e ao tipo de medicamento
Atualmente, existem diferentes tipos de canetas no mercado, como a liraglutida (diária), a semaglutida (semanal) e a mais recente, tirzepatida. A escolha, no entanto, deve ser sempre orientada por um profissional.
Outro alerta grave é sobre a origem do produto. “Comprar canetas em sites desconhecidos ou de terceiros é um risco grave. Esses medicamentos exigem refrigeração rigorosa e, se o transporte falhar, o remédio perde o efeito”, orienta a Dra. Thays. A compra deve ser feita apenas em farmácias, com nota fiscal e verificação do registro da Anvisa.
Não existe mágica, existe tratamento
A especialista finaliza com uma mensagem clara: a medicação é uma ferramenta, mas não a solução completa. Sem uma mudança no estilo de vida, o peso perdido tende a voltar após a suspensão do uso. “O ideal é usar o medicamento como uma ponte para mudar hábitos, e não como uma muleta”, conclui.
A conscientização é o primeiro passo para um emagrecimento saudável. Antes de iniciar qualquer tratamento, procure seu médico e não utilize medicamentos por conta própria.