Às vésperas de completar 82 anos de fundação neste sábado (31), a Aperam South America reuniu jornalistas do Vale do Aço para um almoço e coletiva de imprensa em Timóteo, nesta sexta-feira (30). Durante o encontro, o CEO da companhia, Rodrigo Villela, fez um balanço da trajetória da empresa — desde os tempos de Acesita —, analisou os entraves econômicos enfrentados pela siderurgia nacional e detalhou ações voltadas à segurança, ao controle ambiental e ao desenvolvimento de fornecedores na região.
Celebrando a marca histórica e os cerca de 5 mil colaboradores diretos no país (entre a usina siderúrgica e a Aperam BioEnergia), Villela destacou o reconhecimento recente da companhia no prêmio Lugares Mais Incríveis para Trabalhar (FIA/Estadão), no qual a empresa conquistou o 1º lugar nacional entre as empresas de grande porte com a BioEnergia e o 2º lugar com a operação industrial.

“É um orgulho falar do sucesso que é a Aperam no Brasil. Nós apostamos no país desde os tempos de Acesita, vamos permanecer e queremos crescer. É o resultado de um trabalho intenso de décadas e de gerações que nos antecederam”, afirmou o executivo, que soma 26 anos de carreira na companhia.
Combate ao aço importado e redução do “Custo Brasil”
Na análise sobre o cenário econômico, Rodrigo Villela apontou que a superação dos desafios do setor passa pelo enfrentamento à concorrência desleal do aço estrangeiro — majoritariamente oriundo da China, onde a produção conta com fortes subsídios e incentivos — e pela redução do chamado “Custo Brasil”.
Segundo o CEO, a soma do aço importado de forma direta e indireta (embutido em produtos acabados, como automóveis) deve alcançar a marca de 12 milhões de toneladas neste ano, o equivalente a cerca de um terço da capacidade instalada nacional. Enquanto isso, a indústria brasileira opera atualmente com apenas 65% de sua capacidade.
Apenas nas importações diretas de aço laminado, a projeção para 2026 é de 4,9 milhões de toneladas — mais que o dobro da média histórica de 2,2 milhões registrada nas últimas décadas. No segmento de aço inoxidável, especialidade da planta de Timóteo, o Brasil importa cerca de 100 mil toneladas anuais, o que representa aproximadamente 25% do mercado doméstico.
“Muito desse aço chega aqui com preços predatórios e competição totalmente desleal. Não estamos pedindo absolutamente nada a mais, estamos pedindo competição justa, nas mesmas bases. O governo brasileiro deu um passo importante com a tarifa de 25% em 25 NCMs [códigos de mercadorias], o que ajudou a reduzir o dano, mas o caminho ainda é longo. Precisamos proteger também contra a importação indireta para fortalecer toda a cadeia industrial brasileira”, declarou Villela.
O executivo ressaltou ainda o amplo espaço para crescimento do consumo interno: enquanto o brasileiro consome apenas 2 kg de aço inox por habitante ao ano, a média é de 3,8 kg no México, 4,1 kg na África do Sul e 7,1 kg nos Estados Unidos. Para destravar esse potencial, ele defendeu o combate a gargalos estruturais, como o alto preço do gás natural, as deficiências de infraestrutura e a necessidade de previsibilidade e ressarcimento ágil de créditos com a Reforma Tributária.
Meio ambiente: redução de 65% na poeira e “Aço Verde”
Questionado sobre uma das pautas mais sensíveis para os moradores de Timóteo e do entorno da usina, o presidente da Aperam detalhou os investimentos na renovação de filtros, recirculação de água e controle de emissões atmosféricas. De acordo com Villela, a planta industrial já atingiu 65% de redução na emissão de poeira, aproximando-se da meta estabelecida de 72%.
“Sei que este é um ponto-chave para as cidades que circulam siderúrgicas como a nossa em Timóteo. Tenho convicção de que já melhorou bastante. Ainda não está no ideal e podemos fazer mais, mas a Aperam tem colocado esforços para que isso deixe de ser efetivamente uma pauta no dia a dia das comunidades ao nosso redor”, pontuou.
Com capacidade para produzir 900 mil toneladas anuais de aço bruto (entre inoxidáveis, elétricos e carbono especial), a usina de Timóteo opera de forma integrada à Aperam BioEnergia, utilizando exclusivamente carvão vegetal de florestas renováveis do Vale do Jequitinhonha em seus altos-fornos. O modelo evita a emissão de 250 mil toneladas de $CO_2$ por ano e garantiu à empresa o posto de primeira produtora mundial de aços planos especiais com balanço de carbono neutro (escopos 1 e 2), além da certificação internacional ResponsibleSteel renovada até 2029.
Na frente de economia circular, o destaque apresentado foi o Projeto Ecofinos, que reaproveita finos de minério de ferro na aciaria em substituição a insumos virgens. Entre 2022 e 2025, a iniciativa evitou o descarte de 18,6 mil toneladas de minério e reduziu as emissões em 1,9 mil toneladas de CO_2, rendendo à empresa o Selo Aliança pela Produção Sustentável da FIEMG.
Segurança como prioridade e pioneirismo na usina
Com um efetivo de cerca de 2.700 funcionários próprios na planta de Timóteo e número equivalente de trabalhadores terceirizados, Villela frisou que saúde e segurança ocupam o topo das prioridades de sua gestão. Segundo ele, qualquer trabalhador — próprio ou parceiro — tem autonomia para interromper imediatamente equipamentos ou processos produtivos caso identifique situações de risco.
Além de programas preventivos de mapeamento de riscos e ações voltadas à saúde mental, o CEO revelou que a unidade de Timóteo se tornou a primeira siderúrgica do Brasil a contar com uma equipe interna especializada em alpinismo industrial para a execução segura de trabalhos em altura dentro da área operacional.
Valorização de fornecedores locais e impacto social
Durante a coletiva, o presidente também destacou a diretriz expressa da companhia de desenvolver fornecedores e qualificar mão de obra no Vale do Aço e no Vale do Jequitinhonha, evitando a evasão de talentos da região.
Como exemplo prático, Villela citou a retífica de um motor estratégico da linha de laminação a quente da usina, serviço de alta complexidade que antes não contava com prestadores locais e passou a ser realizado na própria região após um trabalho conjunto de desenvolvimento técnico. Na área de recursos humanos, a empresa mantém programas de formação de operadores siderúrgicos em Timóteo e de capacitação de motoristas de carretas — incluindo turmas femininas — para o transporte de madeira e carvão no Jequitinhonha.
No campo social, o balanço apresentado mostrou que a Fundação Aperam Acesita investiu R$ 6,8 milhões ao longo de 2025 em projetos comunitários distribuídos em cinco municípios do Vale do Aço e seis do Vale do Jequitinhonha. Ao todo, as iniciativas impactaram diretamente mais de 157 mil pessoas — o equivalente a 28% da população residente nas áreas de atuação da companhia.
“Nós estamos aqui, apostamos no Vale do Aço e no Vale do Jequitinhonha, e é aqui que a gente quer trabalhar e crescer junto”, concluiu Rodrigo Villela.