O Supremo Tribunal Federal (STF) encerrou nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, uma sessão extraordinária sem definir se o ministro Alexandre de Moraes poderá ser investigado pela suposta relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O julgamento foi interrompido após o pedido de vista do ministro Flávio Dino, que suspendeu a votação quando o placar parcial apontava 4 votos a 3 pela separação dos casos. Pelo regimento interno da Corte, Dino tem até 90 dias para devolver os autos ao plenário — prazo que se encerra em meados de dezembro, já após as eleições presidenciais.
O impasse teve origem na divergência entre os ministros sobre o rito a ser adotado. O presidente da Corte, Edson Fachin, havia pautado somente a análise do caso de Moraes para esta terça. A discussão sobre as supostas irregularidades na conduta do ministro André Mendonça, antigo relator do chamado Caso Master, estava agendada para o dia 23 de setembro. A ala ligada a Moraes, contudo, defendeu que os dois casos fossem julgados em conjunto, sob o mesmo rito — argumento que acabou dominando a sessão e provocou confrontos verbais entre os ministros.
Por que o rito virou o centro do debate
A disputa processual marcou o início da sessão. O ministro Gilmar Mendes apresentou uma questão de ordem para incluir na pauta do dia 15 a análise das supostas irregularidades atribuídas a André Mendonça. A intenção era que ambos os casos — o de Moraes e o de Mendonça — fossem apreciados no mesmo julgamento, sob o entendimento de que os fatos são conexos.
A questão de ordem foi colocada em votação, mas o escrutínio não chegou ao fim. Após um bate-boca entre Gilmar Mendes e André Mendonça no plenário, Flávio Dino pediu vista do processo. O placar parcial ficou em 4 votos a 3 favoráveis à manutenção dos casos separados — ou seja, pela linha original de Fachin.
Dino, que inicialmente votava pela junção dos casos, alterou seu voto para o pedido de vista, o que congelou toda a deliberação. Até que ele devolva os autos, os ministros não podem retomar nem decidir se há ou não elementos para abrir investigação contra Moraes.
O que se atribui a André Mendonça
André Mendonça atuou como relator do Caso Master, investigação que apura fraudes no Banco Master, considerado o maior escândalo bancário da história brasileira. Alexandre de Moraes o acusa de ter conduzido as investigações com parcialidade, com o objetivo de incriminá-lo.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) reforça a crítica: segundo o órgão, Mendonça determinou o aprofundamento da apuração sobre o Caso Master para esmiuçar as conversas entre Moraes e Vorcaro sem autorização prévia do plenário da Corte. Para a PGR, esse aprofundamento dependeria de deliberação do STF.
O caso de Alexandre de Moraes
O caso veio a público em 1º de setembro de 2026, quando Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) e encaminhou as conversas a Fachin. O documento aponta que Vorcaro trocou cerca de 50 mensagens com um número atribuído a Alexandre de Moraes antes de ser preso, em 17 de novembro de 2025 — data em que o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master.
Moraes negou qualquer irregularidade. Em defesa apresentada na madrugada de terça-feira, horas antes da sessão extraordinária, classificou o relatório como inconstitucional e ilegal e afirmou que as mensagens são fantasiosas. Sobre a atitude de Mendonça, disse que o colega agiu por motivação político-eleitoral, acusando: “Porque está a serviço de um grupo político que tentou dar um golpe neste país” — em referência à ligação entre Mendonça e o ex-presidente Jair Bolsonaro, que o indicou ao STF.
Os efeitos do pedido de vista
Com a interrupção do julgamento, o prazo de 90 dias concedido a Flávio Dino se encerra em aproximadamente 14 de dezembro de 2026. Isso significa que a decisão sobre o destino dos dois ministros pode ser postergada para depois das eleições, o que prolonga a crise institucional na Corte.
A sessão marcada por Fachin para 23 de setembro, que abordaria a conduta de Mendonça, também fica comprometida. Aliados do relator entendem que, com a questão processual em aberto e os processos reunidos na Presidência do STF, a análise não deve prosseguir sem uma definição sobre o rito.