Ipatinga vive um momento de tensão e esperança. A Câmara Municipal lotou na tarde de 18 de maio para uma audiência pública que prometia “abrir a caixa preta da COPASA”. O evento reuniu população desesperada, vereadores de cidades vizinhas, o senador Cleitinho e o diretor regional da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA), Thiago Joselito. O tema central: a falta de água que assola a cidade há anos.
Moradores denunciam falta de agua por até 10 Dias
Os relatos foram emocionantes e contundentes. Moradores do bairro Nova Esperança descreveram situações de extrema dificuldade. Jéssica, moradora do Vila Formosa, fez um apelo direto aos políticos presentes. “Na casa de vocês faltam água dez dias? Na casa de vocês só chegam água durante a madrugada?”, questionou, com a voz embargada.
A realidade vivida pela população é dura. Famílias ficam sem água para tomar banho após o trabalho, para cozinhar ou até mesmo para lavar roupa. Alguns moradores precisam recorrer a vizinhos ou à igreja para conseguir água. Outros transportam caixas d’água do trabalho para suas casas. “Meu marido teve que colocar uma caixa de água dentro do caminhão da loja para a gente poder, pelo menos, usar o banheiro”, relatou Jéssica.
Além da escassez, a qualidade da água é questionável. Quando chega, apresenta aspecto sujo, cor esbranquiçada e mau cheiro. Moradores afirmam que a água “parece leite” e traz impurezas. Mesmo assim, as contas continuam altas. Uma moradora pagou R$ 232 de consumo de água e R$ 171 de esgoto em um mês com apenas 10 dias de abastecimento.

A indignação com a Taxa de Esgoto
Um ponto que gerou particular indignação foi a cobrança da taxa de esgoto. Moradores denunciam que pagam pela coleta e tratamento de esgoto, mas o serviço não é prestado adequadamente. O senador Cleitinho foi incisivo nessa crítica. “O maior roubo legalizado que existe em Minas Gerais é essa porcaria de tratamento de esgoto que não existe”, afirmou o senador durante a audiência.
Cleitinho desafiou o diretor da COPASA a beber a água do rio onde o esgoto é supostamente tratado. “Se aqui está tratando, toma água. Se você beber, eu vou lá com você”, disse o senador, em tom de confronto. A crítica reflete a frustração de uma população que paga integralmente pela coleta e tratamento de esgoto sem receber o serviço de qualidade.
COPASA apresenta justificativas técnicas
Thiago Joselito, diretor regional da COPASA, adotou uma postura técnica para explicar os problemas. Ele descreveu a complexidade do sistema de abastecimento de Ipatinga. “Temos 36 elevatórias de água, 38 reservatórios e uma estação de tratamento que atende a região metropolitana do Vale do Aço”, explicou Joselito.
O diretor apontou que o grande desafio é manter a estação de tratamento de água de Coronel Fabriciano funcionando continuamente. Picos de energia e quedas de tensão têm causado interrupções no abastecimento. Para resolver isso, a COPASA investiu R$ 3,5 milhões em uma “linha expressa de energia” que conecta Timóteo a Fabriciano.
Joselito também mencionou melhorias na elevatória 3.1, que sai do reservatório R3. “Estamos aumentando a capacidade de bombeamento para abastecer cada vez mais a região”, afirmou. Quanto à qualidade da água, o diretor defendeu que as análises atestam a potabilidade no padrão de entrada das residências.
O compromisso: fim de maio
O momento mais importante da audiência foi quando Joselito assumiu um compromisso público. “Essa melhoria está prevista para finalizar até o final de maio”, disse o diretor, referindo-se às obras no Nova Esperança.
O senador Cleitinho deixou claro que cobrará o cumprimento do prazo. “Gravam isso porque se chegar a final de maio, continuar, dia 1º de junho estarei aqui e vocês vão ter que tomar vergonha na cara”, ameaçou o senador.
Matheus Braga: “não vamos recuar um passo”
O vereador Matheus Braga, que convocou a audiência, reafirmou seu compromisso com a população. “Enquanto eu for representante da nossa cidade, enquanto eu estiver aqui, contem com a minha voz. Nós não vamos recuar um passo”, declarou Matheus. Ele também pressionou a COPASA sobre a falta de transparência financeira.
Matheus mencionou um requerimento aprovado no início da legislatura pedindo que a COPASA explicasse quanto lucrou e quanto investiu na cidade nos últimos cinco anos. “Até hoje a Copasa não respondeu. E judicializou para não responder”, denunciou o vereador. Essa falta de transparência alimenta a desconfiança da população em relação à empresa.
A questão do contrato vencido
Um ponto crítico que emergiu na audiência é que a COPASA opera em Ipatinga sem um contrato de concessão vigente desde 2022. Tanto Matheus Braga quanto o senador Cleitinho cobram uma ação da Prefeitura. “Se não tem contrato, como é que ela vai cumprir?”, questionou Cleitinho.
O senador defendeu que a Prefeitura abra uma nova licitação. Ele citou o exemplo de Divinópolis, sua cidade natal, onde uma licitação resultou em um contrato mais vantajoso para a população. “Lá a conta diminuiu 50%”, afirmou Cleitinho. A falta de um contrato vigente é apontada como uma das razões pelas quais a COPASA não investe adequadamente em infraestrutura.
O que esperar agora
A audiência pública cumpriu seu papel de dar voz à população e pressionar a COPASA. Agora, a bola está no campo da concessionária. O prazo é claro: final de maio. Se as promessas não forem cumpridas, o senador Cleitinho prometeu retornar a Ipatinga no dia 1º de junho para cobrar explicações.
A população de Ipatinga, cansada de promessas vazias, aguarda por ações concretas. A falta de água não é apenas um problema técnico. É uma questão de dignidade. Pessoas precisam de água para viver, trabalhar e cuidar de suas famílias. O compromisso assumido na audiência será o teste definitivo da capacidade da COPASA de servir à população.