A paralisação de alerta realizada nesta segunda-feira (6) pelos funcionários da Saritur em Ipatinga foi apenas um aviso. Se a empresa não cumprir seus compromissos de pagamento, o Vale do Aço inteiro ficará sem transporte urbano. A ameaça vem do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Coronel Fabriciano (Sinttrocel), que concedeu entrevista exclusiva à Rede Educadora.
Segundo o sindicato, a situação que levou à mobilização de segunda-feira vem se arrastando desde o final da pandemia. A Saritur pratica atrasos sistemáticos há meses. “A empresa vem constantemente, mensalmente, todo mês, atrasando o pagamento de salário, o pagamento do ticket alimentação, atrasando o adiantamento salarial, atrasando o pagamento de férias”, denunciou o presidente do sindicato.
Os números são preocupantes. Há funcionários que saíram de férias no dia 20 de março e permanecem em casa, impossibilitados de fazer programação com suas famílias porque a empresa não quitou o benefício. A legislação trabalhista obriga o pagamento das férias com dois dias de antecedência. “Para você ter ideia, tem trabalhador que saiu de férias dia 20 de março, está dentro de casa com sua família, porque não pode fazer programação para viajar porque a empresa não pagou as férias”, relatou o presidente do Sinttrocel.
Outras questões
Além dos atrasos salariais, há problemas estruturais graves na operação. Muitos motoristas trabalham entre 10 e 14 horas por dia devido à falta de profissionais no mercado. O sindicato critica a falta de valorização: “A empresa tem muitos motoristas trabalhando 10, 12, até 14 horas por dia, porque está faltando motorista no mercado, e os que tem as empresas não estão dando valor”.
A situação chegou ao limite do tolerável. O presidente do sindicato utilizou uma expressão popular para descrever o momento: “Diante desses descasos que a empresa vem fazendo com os trabalhadores, como diz o velho ditado, hoje o caldo tornou”. A paralisação de segunda-feira foi descrita como um simples aviso, uma manifestação da revolta acumulada.
Promessas
Após negociações, a Saritur se comprometeu a pagar as férias ainda nesta segunda-feira (6) e a quitar salários e ticket alimentação na terça-feira (7). No entanto, o sindicato deixou claro que não há margem para novos descumprimentos. “Se a empresa não cumprir com o que prometeu pro Sindicato dos Trabalhadores, quarta-feira, aí sim não vai ser só movimentação, vai ser mesmo a greve geral”, alertou o presidente do Sinttrocel.
O que torna a ameaça ainda mais significativa é seu alcance geográfico. A greve não se limitará a Ipatinga. Segundo o sindicato, a mobilização abrangerá também Coronel Fabriciano e Timóteo, cidades onde a mesma empresa opera. “A greve não vai acontecer só em Ipatinga, ela vai acontecer também na cidade de Fabriciano e Timóteo, porque é a mesma empresa, então os mesmos sofrimentos que o pessoal de Ipatinga tá passando, os de Fabriciano e de Timóteo também estão”, explicou o presidente do Sinttrocel.
O sindicato enfatiza que a situação ultrapassou o limite da tolerância. Relata que trabalhadores estão adoecendo e que há diversos afastamentos pelo INSS por problemas de saúde e estresse. “Os trabalhadores estão adoecendo, estão com bastante trabalhadores afastados pelo INSS, problema de saúde, problema de estresse, e ainda vem mais essa situação que a empresa vem fazendo conosco. Chega, não dá mais pra aguentar essa situação”, declarou o presidente.
O sindicato também fez um apelo à população. Pediu apoio e compreensão, lembrando que os motoristas e cobradores são trabalhadores e pais de família. “O cara bate alavanca pra empresa o mês todo, quando chega no final do mês, que tem seus compromissos com suas contas, com sua família, a empresa fala que não tem dinheiro pra pagar”, descreveu o presidente do Sinttrocel a situação com tom de frustração.
O cenário para os próximos dias é tenso. A população do Vale do Aço aguarda o cumprimento das promessas feitas pela Saritur. Caso contrário, quarta-feira (8) marcará o início de uma greve que paralisará o transporte urbano em Ipatinga, Coronel Fabriciano e Timóteo simultaneamente. “Ficou insustentável, e agora tomara que a empresa cumpra o que ela falou, porque caso ao contrário ela não cumpra, quarta-feira as três cidades vão estar sem transporte urbano”, finalizou o presidente do Sinttrocel.
O que diz a Saritur
Em nota enviada à Rede Educadora, a Saritur informou que não há pagamentos em atrasado e que a paralisação já havia terminado.
Leia na íntegra:
Recebemos ontem uma notificação sobre um possível estado de greve. Hoje, um grupo não apoiado por todos do sindicato, tentou fechar a porta da garagem para impedir a saída dos ônibus.
Conforme acordado com o sindicato desde a pandemia, o dia do pagamento é o 5° dia útil do mês, que será quarta-feira. Portanto, não existe atraso.
A operação já foi normalizada.